Contra o Esquecimento

A memória faz parte da sua rotina, mas você já parou para pensar em como ela funciona e como melhorá-la?

Quem nunca teve um dia cheio de problemas no trabalho e, no final do expediente, esqueceu onde estacionou o carro? Ou não lembrava mais o nome da pessoa que acabou de conhecer? A função responsável por controlar essas ações é a memória e sim, ela também pode falhar. Essas atitudes são cada vez mais presentes no dia a dia de quem tem uma rotina atribulada e são mais comuns do que você pensa.

Melhorar a memória

O funcionamento da memória intriga cientistas há muito tempo. O primeiro estudo experimental sobre o assunto foi feita na segunda metade do século 19, em 1885, pelo alemão Hermann Ebbinghaus. O pesquisador realizou testes nele próprio para mostrar o funcionamento da memória e do esquecimento, sendo o pior nesta área. Desde então, a ciência se desenvolveu muito e encontrou respostas para o que, até então, não era possível explicar.

Afinal, o que é a memória?

Os neurônios são considerados elementos chave na memorização porque gravam os eventos da vida através de conexões ocorrentes entre as células, chamadas sinapses. Essas células são permanentes e têm pouca capacidade de regeneração, mas sua constância ao longo do tempo permite a manutenção das memórias e conexões indispensáveis. Cada neurônio possui marcas de todas as emoções e aprendizados presenciados por toda a vida.

Segundo Bruno de Brito Antonio, professor do curso de psicologia da Universidade Anhembi Morumbi, “a memória pode ser definida como a habilidade de adquirir, reter e utilizar informações e conhecimentos”. Com ela, é possível lembrar, intencionalmente ou não, imagens e hábitos que foram aprendidos no passado. Com o desenvolvimento da ciência, pesquisadores detectaram diversos componentes ou tipos de memória que se articulam integralmente, formando uma espécie de rede.

O professor explica que ela pode ser dividida em duas partes básicas: á memória de curto prazo (MCP) e memória de longo prazo (MLP). Como o nome diz, a primeira tem duração curta, de poucos segundos, é utilizado quando tentamos decorar um número de telefone ou nome de uma pessoa. Eu processo ocorre na parte frontal do cérebro, chamada lóbulo pré-frontal. Já a segunda pode durar horas, dias e até anos, fazendo com que você lembre tanto de coisas que aconteceram ontem, quanto do que aconteceu na sua infância. O hipocampo organiza processos que envolvem a construção de boa parte dos tipos de informação para a MLP.

A MLP também é dividida em dois subtipos. A memória consciente, chamada de declarativa, é usada para tudo o que lembramos voluntariamente, como num fato ou um evento. A não – declarativa está relacionada á formação de hábitos e habilidades motoras, que aprendemos inconscientemente.

 Como ela funciona?

Thiago Cardoso Vale, professor auxiliar de neurologia da Faculdade de Medicinada Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que, quando uma experiência sensorial é captada pelos órgãos do sentido, ela é transmitida a uma região cerebral chamada de área primária, responsável por interpretar aquele sentido. Em seguida, a informação sensorial passa para uma área secundária ou associativa, que a integra com as informações anteriores. Por fim, a informação chega a áreas terciárias, responsáveis por transformar o conjunto de fatos aprendidos em uma ação ou emoção

Segundo a médica doutora em neurologia Maria Teresa Castilho Garcia, para que a memorização ocorra, é preciso desenvolver processo neuroquímicos complexos, através de neurotransmissores cerebrais, que funcionam 24 horas por dia. “Esse processo ocorre em circuitos cerebrais, chamados circuitos límbicos, que envolvem várias estruturas específicas do cérebro, responsáveis pelo armazenamento de informações, como fatos  corriqueiros do dia a dia”, explica Maria Teresa.

Alterações constantes

Segundo o professor de psicologia, alterações no funcionamento da memória podem ocorrer em qualquer idade. Na infância, a criança pode apresentar déficit de atenção e hiperatividade. “A atenção é extremamente importante para a formação da memória de longo prazo”, explica Bruno. Já na fase adulta, a pessoa pode ter déficit de atenção por estresse, que geralmente vem acompanhado de uma alimentação ruim, sedentarismo e insônia, fatores que podem piorar o caso.

Na terceira idade, a preocupação é mais voltada para as doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. “Há uma relação direta entre a incidência destas doenças e o aumento da idade”, conta o professor.

Bruno explica que é possível contornar as dificuldades de memória naturais no processo de envelhecimento. Em uma analogia, o professor compara o encéfalo com um músculo do braço. Se a pessoa engessa o braço por um mês, o músculo atrofia e fica mais fino. O encéfalo funciona mais ou menos do mesmo jeito. “É importante exercitar o encéfalo com atividades como leituras, palavras cruzadas, e quebra – cabeças”, conta Bruno. O convívio social também é de extrema relevância no processo.

O poder da repetição                                                                                                                                 

 Bruno conta que a memória está relacionada á sobrevivência de humanos e animais desde os primórdios. “Quando os humanos ainda moravam em cavernas, era importante eles saberem e lembrarem onde havia um ninho de cobras, um grupo inimigo ou árvores frutíferas e animais para caça”, acrescenta o professor. Claro que essa situação não acontece nos dias de hoje, mas a função é igualmente importante quando saímos do shopping center e precisamos encontrar onde estacionamentos o carro, por exemplo.

Maria Teresa explica que, para a memória se consolidar, é preciso um trabalho cerebral intenso. Ao longo do tempo, a memória se deteriora , além de o envelhecimento afetar a capacidade de armazenar informações.

Por isso, a repetição é uma forma importante de armazenar e consolidação da memória. ”Quanto mais repetimos uma tarefa ou estudamos determinado assunto, aquela informação se consolida”, conta a professora. Outras funções importantes são atenção e concentração, que, quando comprometidas, podem alterar significativamente a capacidade de memória de um dos indivíduos.

Aliados da boa memória

Thiago explica que existem evidências de que diversos componentes da dieta têm sido identificados como dotados de efeito cognitivo. Os polifenóis, antioxidantes encontrados em alimentos como chocolate, frutas roxas, vinho tinto, e chá verde, têm ação neuroprotetora, evitando que os neurônios sofram alguma inflamação causada por neurotoxinas. O professor aponta também os flavonoides, encontrados em chás, soja, frutas vermelhas, alho e outros alimentos, que possuem ação antioxidante para o cérebro.

Alimentos ricos em ômega – 3, como salmão, rúcula e óleo de soja, diminuem o risco da doença de Alzheimer. “Adicionalmente, um consumo adequado de vitaminas no idoso é essencial, porque a deficiência de vitaminas B12  é ácido fólico podem causar quadro demencial”, conta Thiago.

Segundo o professor, os exercícios físicos também são grandes aliados na manutenção da boa memória. “Qualquer atividade física regular está associada a uma melhora no desempenho cognitivo. Em particular, os regimes de exercícios aeróbicos, intercalados com métodos de resistência, produzem os maiores benefícios e podem até melhorar o desempenho sexual. Porém, somente exercitar seu corpo não vai lhe transformar em um gênio como Albert Einstein”, conclui.

a memória pode ser definida como a habilidade de adquirir, reter e utilizar informações e conhecimentos”.

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